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Soul: E se viver já fosse o suficiente?

A história acompanha Joe Gardner, um professor de música que passou grande parte da vida sonhando em se tornar um grande músico de jazz. Para ele, tocar profissionalmente não é apenas um sonho. É aquilo que ele acredita que finalmente vai fazer com que a sua vida comece de verdade.

Joe está convencido de que, quando conseguir aquela oportunidade que sempre esperou, tudo vai fazer sentido. Como se existisse um momento específico capaz de transformar toda a sua existência.

Quantas vezes pensamos que só vamos ser realmente felizes quando conseguirmos alguma coisa? Quando entrarmos na universidade que queremos, conseguirmos o emprego dos sonhos, viajarmos para determinado lugar, conhecermos alguém especial ou alcançarmos aquele objetivo que estamos perseguindo há tanto tempo.

Soul começa justamente brincando com essa ideia de que precisamos chegar a algum lugar para finalmente começarmos a viver.

Depois de um acontecimento inesperado, Joe vai parar em um lugar completamente diferente e acaba conhecendo 22, uma alma que ainda não encontrou uma razão para querer viver na Terra. É através da relação entre os dois que o filme começa a mostrar que aquilo que estamos procurando nem sempre está onde imaginamos.

Durante boa parte da história, Joe acredita que o propósito de 22 precisa ser encontrado para que ela possa ir para a terra. Mas, aos poucos, percebemos que não é necessariamente uma profissão, um sonho ou uma grande missão de vida.

22 apenas quer viver e aproveitar as pequenas coisas da vida. Como naquela cena em que ela come um pedaço de pizza, algo tão simples, mas com tanto significado.

Nós vivemos em uma época em que existi uma pressão enorme para descobrirmos quem somos e o que vamos fazer com o resto das nossas vidas. Principalmente quando somos jovens. Existe uma expectativa de escolher uma profissão, ter objetivos, construir uma carreira e saber exatamente para onde estamos indo.

Soul mostra que está tudo bem não saber, não ter cada passo da sua vida definido.

Talvez a vida não precise ter um único propósito gigantesco. Talvez não exista uma profissão, um talento ou uma conquista capaz de justificar toda a nossa existência.

O filme também fala muito sobre como podemos ficar tão presos aos nossos sonhos que deixamos de perceber a vida acontecendo ao nosso redor.

Joe ama música. E isso é lindo. O problema não está em ter um sonho. O problema começa quando acreditamos que só poderemos ser felizes depois de realizá-lo.

Existe uma cena no filme que representa isso de uma maneira muito simples e bonita. Depois de finalmente conseguir aquilo que passou tanto tempo desejando, Joe percebe que a sensação não é exatamente como imaginava.

Porque realizar um sonho não transforma automaticamente todos os outros aspectos da nossa vida.

Às vezes passamos tanto tempo pensando no momento em que alguma coisa vai acontecer que esquecemos de prestar atenção em todos os pequenos momentos que acontecem antes dela.

Uma conversa que nos fez sorrir. Uma música que ouvimos no caminho para casa. Uma tarde comum com alguém que amamos. Quem torna a nossa vida mais divertida, somos nós mesmos.

A vida não precisa parecer um filme para ser especial.

A maneira como Soul fala sobre sonhos sem dizer que devemos desistir deles. Muito pelo contrário. O filme mostra que nossos sonhos podem ser importantes, mas eles não precisam carregar o peso de definir o nosso valor.

Joe é muito mais do que o seu piano.

Ele é um professor, um amigo, um filho, uma pessoa que gosta de música. O seu sonho faz parte dele, mas não é tudo o que ele é.

Somos muito mais do que as nossas notas, os nossos trabalhos, os nossos planos, os nossos erros ou aquilo que ainda não conseguimos alcançar.

Soul é uma animação que consegue falar sobre assuntos enormes sem perder a delicadeza. É bonito, divertido, melancólico em alguns momentos e, principalmente, muito humano.

É aquele tipo de filme que pode ser assistido por pessoas de diferentes idades, e todas vão receber a mensagem de maneira muito leve e clara.

Giulia Jacomassi

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